O que o Catar viu em Neymar?

Para levar Neymar Júnior (foto), o Paris Saint-Germain pagou uma multa rescisória de € 222 milhões ao Barcelona e aceitou dobrar os ganhos anuais dele para € 30 milhões – termos que não apenas o colocam na elite dos quatro futebolistas mais bem pagos do mundo, mas configuram a maior compra de um jogador na história do futebol.

A transferência despertou todo tipo de sentimento. Uns viram na transação mais uma jogada esperta de um jogador de ética questionável, que entrou em campo contra o Barça quando já estava vendido ao clube e ainda deve milhões à Receita Federal. Outros viram na reação o despeito tão comum do brasileiro diante do sucesso alheio.

E quem comprou, viu o quê? Indiscutível que Neymar é um craque. Mas vale tudo isso? Mais que o dobro da maior compra antes registrada (Paul Pogba, pelo Manchester United, por € 105 milhões)? No último balanço, o PSG declarou faturamento de € 317 milhões, para despesas de € 542 milhões. Como explicar uma transação que, nas palavras de Arsène Wegner, técnico do Arsenal, desafia “os cálculos e a racionalidade”?

A explicação, como todos sabem, está no dono do PSG, o fundo Qatar Sports Investments (QSI). Trata-se do braço esportivo do fundo soberano do governo do Catar, a Qatar Investment Authority (QIA), que controla ativos de US$ 335 bilhões. A QIA comprar Neymar equivale, para alguém que tem uma poupança de R$ 10 mil no banco, a tomar um tomar lanche na padaria.

Mas sempre é possível comprar dois pães-de-queijo em vez de um xis-salada, ou levar quatro pãezinhos em vez de uma coxinha. Por que exatamente Neymar? E por que exatamente agora? Por mais que o Catar esteja organizando a Copa da de 2022 e queira há quase sete anos fazer do PSG o campeão europeu, a explicação nada tem a vez com esportes. Neymar se tornou o peão numa disputa geopolítica crucial ao futuro do Oriente Médio.

O Catar é um país minúsculo da península Arábica, dono de imensas reservas de petróleo e gás natural. Em 2016, teve a maior renda per capita do mundo. Sua única fronteira terrestre é com a Arábia Saudita. Está situado bem diante do Irã, do outro lado do Golfo Pérsico, com quem partilha suas reservas de gás. Arábia Saudita e Irã são as duas potências que disputam hegemonia na região.

Desde 2011, quando a Primavera Árabe provocou um realinhamento geopolítico em dois grupos. No primeiro, Arábia Saudita, Egito, Jordânia e Emirados Árabes. No segundo, Irã, Síria e, em menor medida, Turquia. O Catar abandonou aos poucos a esfera de influência saudita e fez acenos aos iranianos. Na guerra da Síria, apoiou os grupos islamistas mais radicais. Até jihadistas aplaudem o Catar nas redes sociais.

Em 2013, o atual emir Sheikh Tamin bin Hamad Al Thani recebeu, aos 33 anos, o poder do pai, Sheikh Hamad bin Khalifa Al Thani, que se distanciara dos sauditas. Esperava-se uma reaproximação, mas Sheikh Tamin manteve o apoio à Irmandade Muçulmana no Egito e contrariou interesses da aliança egípcio-saudita. Em 2014, Bahrein, Emirados e Arábia Saudita chegaram a retirar seus embaixadores de Doha, mas depois fecharam um acordo, pelo qual o Catar cederia a algumas exigências.

Tal acordo, segundo os sauditas, não foi cumprido. Em junho passado, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes e Bahrein romperam relações com o Catar, acusado de manter apoio a grupos terroristas. Sob influência dos quatro países, o Conselho de Cooperação do Golfo apresentou uma lista de 13 exigências, até o momento desprezadas pelos catarenses. Entre elas, o refúgio a dezenas de terroristas procurados, o fechamento da rede de TV Al Jazeera e o afastamento do Irã.

A Arábia Saudita fechou seu espaço aéreo a voos para o Qatar, e suas fronteiras até aos camelos que costumava receber do país vizinho. Para os sauditas, os catarenses deveriam se inspirar no exemplo de outros estados do Golfo. Como Omã, capaz de manter relações próximas ao Irã sem ameaçar a estabilidade regional. Ou mesmo os Emirados Árabes, que transformaram Dubai em polo turístico, como estratégia para a era pós-petróleo.

A aposta do Catar para o futuro mistura, de um lado, o financiamento a islamistas radicais no Iêmen ou na Síria e, de outro, uma operação de “soft power” sem paralelo no Oriente Médio. Doha obteve uma influência sobre toda a região por meio da Al-Jazeera e de sua filial esportiva, o canal beIN (ambos foram suspensos nos países que romperam relações).

Em 2012, a QSI comprou o PSG por € 253 milhões. Depois o Catar levou a Copa de 2022, numa transação até hoje envolta em mistério – os jogos tiveram de ser transferidos para dezembro, tamanho o calor no país durante o verão.

A QIA também tornou-se dona da célebre loja de departamentos Harrods, em Londres (comprada por US$ 2 bilhões) e de uma fatia do Empire State Building em Nova York (US$ 620 milhões). Controla o grupo Valentino (US$ 1,2 bilhão), os estúdios Miramax (US$ 660 milhões) e, no campo das artes, venceu alguns dos mais disputados leilões recentes. Só em três quadros de Cézanne, Gauguin e Mark Rothko, investiu US$ 615 milhões.

Neymar é apenas mais um quadro que os catarenses pretendem exibir, talvez para desviar a atenção de suas transações com os islamistas. Há uma semana, diante da pressão do público, os Emirados Árabes acabaram liberando o sinal do canal esportivo beIN. Com Neymar no PSG, essa pressão só fará aumentar.

Categoria:MUNDO

Deixe seu Comentário